Pensamentos sob a Luz Negra
-FootPrints in The Sand-
-O sol já não brilha mais….
O botão vermelho do amplificador esta iluminado…
As seis cordas de níquel vibram levemente produzindo um som ansioso… A melodia quer sair… Seguir… Andar….
A luz negra que revela meu passado é ligada mais uma vez…
Hoje…
Doce…
Extremamente doce…
A espera de um tom esverdeado que deu vida ao seu tom normalmente azulado…
A palheta preta começa a passear pelas cordas e a melodia começa a mostra as imagens de “um país das maravilhas” …-
01:03 AM
Lembro da hora da primeira nota tocada… Lembro do exato momento em que falei com Alice pela primeira vez, lembro do meu caminhar e de quando meus passos pararam de tocar o chão para que o passado não mais pudesse me encontrar. Desde aquele dia, não deixei rastros, não deixei pegadas…
Lembro… Das árvores que encobriam a luz dos postes… Lembro da luz calma que chegava ao rosto de Alice naquela noite… Lembro da canção que apenas meus olhos e os de Alice escutaram… Lembro… E ainda sinto… O gosto doce da melodia que iniciamos juntos ali…
Ao voltar para casa nesta noite o Gato de Cheshire sorriu para mim pela primeira vez… Não disse nada, apenas sorriu… E este sorriso só poderia significar uma coisa… Estava ficando maluco…
Realmente, “maluco como um chapeleiro”, como na expressão vitoriana que deu nome a personagem de Lewis Carroll, maluco ao ponto de criar metáforas para descrever os últimos momentos em que vivi no mundo real e o meu caminho pelo pais das maravilhas. Maluco, Louco, não como os verdadeiros chapeleiros vitorianos, intoxicados com o vapor de mercúrio, mas louco, embriagado no sentir o gosto doce da musica de minha Alice.
A luz negra brilha enquanto penso…
Estou Louco como um chapeleiro… Mas estou velho para crer em contos de fada… Estou velho para crer no país criado para uma criança…
O Gato de Cheshire aparece a minha frente com seu largo sorriso. Suas listras claras e seus dentes brancos brilham com a luz negra. Ele olha minha face e diz:
-Chapeleiro … Você esta sendo esperto… Esperto o suficiente para esquecer de usar sua inteligência. Você nunca foi um dos “espertos”… Você sempre foi um “Tolo”. Contos de fadas!! – um coro de gargalhadas é ouvida vindo do Gato que agora só tem uma cabeça flutuante em meio a luz azulada – Desde quando existem fadas na historia de Alice? Esta Alice é real, mais real que a própria realidade, precisa apenas ser “jovem” o suficiente para que sua mente acostumada com a agonia do passado não pense mais nisso… Afinal se ela, sua mente, é “jovem” de novo, não passou pelo que seu passado, que não pode encontrar seus rastros, te fez ter medo. Alias, desde quando você para por causa do medo? Você é maluco. Malucos, loucos, insanos usam o medo como combustível para a coragem.
Fito a cabeça do gato sorrindo, penso que ele tem razão, mas uma pergunta me vem a mente, ainda velha:
-Como posso ser “jovem” outra vez? – Pergunto alisando minha barba serrada.
-Chapeleiro, meu amigo, precisas apenas de algo para lembrar-lhe de que ainda é jovem e que fica mais jovem a cada segundo. Lembre-se só existe um aniversario por ano e sobram 364 dias para ficar mais jovem. Hoje não é seu aniversário, então… Feliz Desaniversário Chapeleiro.
O Gato de Cheshire desaparece enquanto sorri e minha barba desaparece com ele. Meu sorriso aparece, mais jovem, conforme a barba e o gato se vão. O passado não pode ver meu rastro, pois não toquei o chão para deixar pegadas, e mesmo que o tivesse feito, o passado não existe mais, pois … Sou jovem, não passei pelo passado ainda, e no futuro, não passarei por ele ‘De novo”.
O coelho branco aparece com seu relógio e o mostra para mim… Preciso ir para a entrada de seu buraco… Alice esta chegando. Alice esta chegando para continuar a doce canção que começamos naquela noite… Mais uma noite, mais uma noite de música…
Alice aparece com seus longos cabelos dourados na entrada do buraco do coelho. Olha para mim e diz surpresa com meu rosto… Você esta lindo Chapeleiro. Parece ao menos dez anos mais jovem… Era tudo que precisava ouvir. Neste momento a abraço para não mais largar. A partir deste dia a morada de Alice são meus braços… Os braços do “jovem” Chapeleiro Maluco.
Naquela noite nos demos muitas canções doces ao som de outras canções escutadas ao longe. Ali, naquele momento, percebemos que não podia mais continuar tocando sozinho nem Alice poderia cantar mais só… Unimos minhas cordas com sua voz e fizemos do resultado nossa música.
A Música… Nossa Música… Capaz de transformar pedras em almofadas, escuridão em luz intensa, água em espelhos, reflexos em sorrisos, dia em noite e a Lua… em testemunha. Com uma música assim… Quem precisa de fadas? Tenho certeza de que O Gato de Cheshire falaria isso, mas quando a música começou o gato não apareceu mais.
O som da brilhante música de nós dois é cada vez mais alto, transforma o mundo a nossa volta…
Grandes Shows barulhentos transformam-se em pequenas salas com nossa música suave, meu ombro uma almofada para ela relaxar e meus braços um cobertor para esquenta-la. A música de nós dois é a verdadeira porta para este país, que para muitos é estranho…
É preciso coragem para acreditar nele, e nós temos esta coragem. A música doce que nos damos, que fazemos, que criamos é a porta para este mundo. Minhas seis cordas de níquel hoje são a pele suave do rosto de Alice. A voz dela hoje se ouve ao encontrar de nossos olhos…
A cada dia fico mais jovem e Alice mais bela. Nossos pés não tocam o chão, flutuamos pelas terras que todos vêem, mas apenas nós enxergamos.
Alice mostrou-me os raios do por do sol pelas frestas da cortina balançando com o vento…
O por do sol sempre nos brinda com a chegada da Lua para testemunhar, mais uma vez… A realidade do país de Alice…
E o que ela encontrou por lá…
Ela me encontrou, numa noite…
Tomando meu chá e brigando com o tempo como um mortal qualquer…
Ela mostrou-me que não sou um dos “espertos” e fez-me brigar com o tempo… Como o maluco que sou… Como seu Chapeleiro… Embriagado com o doce de sua música em meus lábios.
Os dias passam… E eu a brigar com o tempo. Quero que ele passe rápido e espere. Mas mesmo quando eu estou a esperar a boa vontade do tempo estou feliz…. Alice está em mim mesmo que o tempo não queira. Mas ainda brigo com ele para não perder o costume… Afinal, sou maluco. Sou o Chapeleiro Maluco de Alice. Pensei nisso enquanto estava olhando o mar com ela, escutei uma risada nesta hora, mas não descobri de onde vinha. Levantamos e começamos a andar pela areia… Depois de poucos passos olho o sorriso de Alice e ao seu lado o Gato de Cheshire finalmente volta a sorrir para mim.
-Ola Chapeleiro. A quanto tempo, não?
Fico feliz em vê-lo, mas não sei se o respondo.
-Calma Chapeleiro. – O Gato fala enchendo uma xícara de chá que apareceu em uma nuvem de fumaça de bule antigo – Ela não pode me ver ou ouvir, e para falar comigo basta pensar- O gato abre um sorriso enorme e toma o chá em um único gole.
-Ola Gato. – Penso eu alto o suficiente para que ele escute, acho – Por onde andou?
-Estava escondido, assistindo seu passeio pelas terras de Alice. Esperava o dia em que falaria com você de novo. Preciso te contar uma coisa.- O gato fica sério.
-Pois fale.- penso eu curioso e um tanto aflito com o que possa vir a escutar – O que precisa me contar que tenha te dado o trabalho de esperar e se esconder?
-Me escondi por precisar esperar e esperei por precisar ver, e tive certeza agora – ele tira o relógio do coelho branco de um bolso em meio aos seus pelos fartos – esta quase na hora.
-Quase na hora de que? O que quer me con… – Antes de terminar ele interrompe
-Calma! É agora, escute o que ela vai dizer – Ele aponta para Alice.
“Chapeleiro, na areia fofa é mais difícil andar, estamos afundando a cada passo.”
Olho para Alice e depois para O Gato, não sei o que falar a ela e nem o que perguntar a ele. Alice continua:
“Hum! Veja, pisando nas pegadas dos que já passaram aqui não afundamos, pois a areia já não esta tão fofa…” – o Gato aperta um botão escondido no relógio e o mundo congela, então ele diz:
-Chapeleiro, o que tenho a te dizer é algo que já sabes e sabes fazer muito bem. – Presto muita atenção as palavras do Gato - Primeiro, este mundo que flutua, não é de Alice. Segundo, a menina que esta ao seu lado não é Alice.
-Como assim? – digo perplexo. Agora em voz alta.
-Calma! Já estou cansado de te pedir calma, sabia? Então apenas escute, suas palavras são melhores quando ditas para a menina, não para mim. – Depois de um longo suspiro ele continua- Este mundo pertence a você e esta menina, nunca foi de Alice. Mas, ele se confunde com o mundo dos homens e mulheres sem coragem de viver e por isso existem pegadas nele. As mesmas pegadas que você, inteligentemente, deixou de fazer ao começar a flutuar para que o passado não pudesse te encontrar, o passado onde você achou ser apenas mais um. Então, não deves pisar nas pegadas dos passados dos homens como a menina quer fazer para facilitar a caminhada. Entendeu essa parte?
Respondo positivamente com um movimento de cabeça e lembrando de que um dia realmente pensei ser apenas mais um, mas descobri que não sou ao ver o verde dos olhos de Alice… Que não é Alice.
-Bem, o que sei fazer muito bem é não deixar rastros para o passado, hoje futuro, pois rejuvenesci ao ponto de deixar o passado “para frente”. Mas, quem é esta menina senão Alice?
-Agora sim uma boa pergunta – Gargalha o Gato – Vou responder com outra pergunta. Quem é a única capaz de acreditar no impossível antes do café da manhã e por isso portadora de coragem para viver? – O sorriso sarcástico do gato fitando meus olhos me dá a resposta. – Sabia que iria entender, es tão louco quanto eu para entender o impossível e saber que ele é muito mais possível do que a sub-vida imediatista dos humanos “apenas mais um”. Já sabes o que fazer não é Chapeleiro?
-SIm Gato – meu sorriso aparece enquanto falo – Já sei quem é ela. Já sei o que fazer, mas tenho uma pergunta ainda. Quem é Alice?
O Gato ri e diz:
-Esta ficando bom em fazer perguntas. Alice não é quem, ou talvez um dia seja, mas por enquanto Alice é “o que”. Alice é a criação dos dois juntos, Alice é a música que vocês criam, dão e cantam. Alice é algo que se constrói e vocês estão construindo, um passo de cada vez. Opa, passos… Já sabes, né? Já sabes o que fazer agora?
-Sim Gato, Sei.
O gato de Cheshire desaparece rindo em um redemoinho no ar. Pouco antes de sumir completamente ele mostra o relógio do coelho e aperta o botão para o tempo voltar a andar. A menina olha para mim sorrindo prestes a pisar nas pegadas feitas por outros. A seguro, abraço e digo:
-Não pise, nem siga os passos dos outros. Deixe que eu vou a frente construindo novas pegadas para você pisar. Não te deixarei afundar. Esta na hora de começarmos a construir “Alice”. Sem flutuar… Um passo de cada vez… Deixando nossas pegadas na areia, como um registro da felicidade que passou e seguindo para o futuro que nós dois queremos… Minha Rainha Branca.
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