Cá estou eu de volta ao mundo virtual… Ou será que este é o mundo real? Hoje em dia é difícil saber qual a diferença entre virtual e realidade a linha imaginaria que divide os dois mundos está cada vez mais imaginaria. Mas, sou um sujeito “velho” gosto de livros empoeirados muito mais do que telas de matriz ativa ou qualquer coisa do tipo.
De qualquer forma, estou de volta. Depois de um ano pensando, sofrendo, rindo, gargalhando, e parando de vez com coisas que não valiam à pena ter começado (Lamentar os acontecimentos era a principal delas) estou de volta. De Volta as letras virtuais e as não virtuais. Renascido das cinzas. Não é a toa que uma amiga de blog me apelidou de Sr. Phoenix. Mas, desta vez tive motivos fortes. Podemos chamar este motivo de pudor hipócrita. Tive medo de escrever certas coisas que me atingiam diretamente. Tive medo de usar minha própria vida como argumento para minhas historias. Mas o que seria um escritor caso não se valesse de seus próprios temores e sofrimentos para criar algo que valesse a pena ser lido? Foi neste ponto que minha mente se desprendeu e transformou-se nas linhas que vão ler a seguir.
Que fique claro:
-Não sou Bird – apenas emprestei alguns poucos traços de personalidade e alguns fatos ocorridos na minha vida.
- Nem todos os acontecimentos realmente aconteceram, nem fiquei tão deprimido assim, mas o ano que se passou foi realmente muito duro e estranhamente produtivo.
- Todos os personagens são baseados em pessoas reais, ou nem tanto, depende do ponto de vista.
Bem, sem mais delongas espero que gostem e comentem.
Sejam bem-vindos ao novo Old Memories – After Dark.
-After Dark-
Parte 1
Tímidos raios de sol esgueiram-se pelas frestas da cortina de tecido barato que cobre a janela. Bird está sentado há pelo menos cinco horas na cadeira desconfortável que colocou no centro da cozinha escura. Seu corpo está completamente entorpecido pela falta de movimento e seus olhos fitam o vazio da escuridão. Até os intrometidos raios de sol macularem as trevas Bird estava exatamente onde queria estar. Em um lugar onde nada podia ver e ninguém poderia encontrá-lo, um lugar sem vida.
Ele sabe que mesmo na escuridão sua dor não irá deixá-lo, nada nem ninguém pode curá-lo do que sente, ninguém conseguirá enxugar suas lágrimas, mas ao menos ali poderá ficar sozinho. Em meio à escuridão pode sofrer em paz sem identificar nada ao seu redor, no vazio de sua própria mente quer deixar suas asas atrofiarem lentamente encarcerado nesta arapuca que ele mesmo criou. “A escuridão é mais segura.”,___pensa ele___ “É fria e inóspita, mas é mais segura que a realidade quente e dolorosa que tenho que enfrentar. Tenho que permanecer aqui.”
Mas Bird entende que por mais que queira não poderá permanecer ali por mais tempo. Infelizmente cabe a ele a ingrata tarefa de recepcionar os “convidados” e representar a família da anfitriã que jazia dentro do caixão na capela. Não é o primeiro enterro em que Bird vai, mas é o primeiro onde estará sozinho em meio a multidão de pessoas chorosas. Sabe que estará sozinho nesta hora, mesmo sendo todos lá conhecidos estará solitário. A única pessoa que conseguia lhe dar forças nestas ocasiões está fazendo o papel do morto.
A mente de Bird não para de tagarelar:
“Seria tão simples se eu pudesse apenas desaparecer nestas sombras e não ser visto por mais ninguém. Como seria reconfortante não ter que tomar atitudes práticas numa hora dessas, não precisar ser político e simpático com pessoas que eu sei que não vão se comportar da maneira que eu penso que deveriam. É verdade que todos estão sentindo dor, mas por que será que só eu que sinto a maior de todas, e não é preciso ser nenhum gênio pra perceber, tenho que ser educado e aturar coisas que normalmente me fariam levantar e ir embora sem dar explicação? Sim, foi um parente deles que morreu, mas é do meu lado que ela não vai mais estar.”
A luz torna-se mais intensa e a cortina não pode mais conter os raios dourados. A luz do sol invade o lugar, Bird em um movimento involuntário tenta esconder-se nas sombras que ainda restam. Encostado a parede, acuado como um animal prestes a ser atacado por um predador implacável observa a luz dourada. Aos olhos de Bird parece viscosa e desagradável, algo como uma secreção contendo uma doença contagiosa e incurável… Um câncer consumindo cada pedacinho são da escuridão tão pura e segura de que precisa. O desespero toma conta de Bird, lágrimas escorrem por seu rosto e suicidam-se ao chegar a ponta de seu queixo jogando-se ao precipício que as levará ao chão já parcialmente tomado pelo câncer luminoso vindo da janela da cozinha.
“Acorde”
Uma voz suave ecoa nos ouvidos de Bird, uma voz feminina, calma e doce com um leve tom de alegria ao final. Ele fecha os olhos e a voz mais uma vez diz:
“Acorde”
A voz é sussurrada carinhosamente em seu ouvido. Ele rapidamente abre os olhos, mas não há ninguém ao seu lado. Ao olhar para frente à luz do sol o cega por alguns instantes.
___ A realidade me alcançou. ___ diz Bird para si em voz embargada
___ Não dá para fugir mais. Pelo menos por enquanto preciso enfrentar isso.
Ele está certo. Não pode fugir, tem que tomar atitudes práticas nesta hora. Apesar de não se julgar apto é o único que pode fazê-lo. Os outros estão abalados demais, cansados demais… Ele também está cansado, mas apesar da tristeza que aparenta rasgar sua pele e dilacerar sua carne é o único que pode fazer às vezes de “promoter” deste velório que não deveria estar acontecendo.
Arrastando a sombra do homem que foi uma noite atrás, Bird vai em direção a cafeteira. Pega o primeiro copo que seus olhos encontram e toma um gole de café. Um calafrio percorre sua coluna como as águas violentas de um rio montanhês após uma tempestade. Ele ri e diz sussurrando:
___ Certas coisas vão continuar sempre como são.
Com dificuldade ele vai em direção ao banheiro, precisa lavar o rosto e tornar-se apresentável para a fatídica recepção. Diante do espelho Bird vê o resultado de uma noite sem dormir. Seu rosto está pálido e a barba pessimamente aparada lhe confere um ar sujo. As olheiras grandes e negras ajudam a compor a aparência mais deprimente que já virá. Não há muito que fazer a não ser lavar o rosto e se preparar para um longo e cansativo dia.
Não há necessidade de relatar os acontecimentos seguintes. A menos que já se tenha perdido alguém muito querido o roteiro do dia vai parecer mais uma cena de enterro de filme B. Só o que faltará é a deprimente música, de domínio público para cortar custos, executada por estudantes de violino, reprovados, de alguma escola de música quase falida precisando de publicidade grátis.
A noite chega, Bird observa o sol se pondo monotonamente, mas com uma certa alegria. Finalmente sua amiga escuridão está de volta. Sem acender as luzes ele entra em seu apartamento. Uma sensação de vazio se instala em seu peito, mas não é tão desagradável, as lembranças incrivelmente são mais brandas aqui do que em qualquer outro lugar, apesar de boa parte dos acontecimentos que levaram Bird a querer se isolar tenham acontecido aqui.
Ele vai ao banheiro lava o rosto e vai para o quarto. Mergulha nas profundezas da escuridão de sua cama e se põe a pensar.
“Como irei manter-me na escuridão. Isolar-me totalmente não posso, alguma hora vou ser obrigado a encarar alguém. Não moro no meio de uma floresta de onde poderia tirar minha comida e não ver ninguém, isso aqui é o Rio de Janeiro, uma das cidades mais movimentadas do planeta. Para piorar moro em Copacabana e como se já não bastasse ainda estamos em mês de alta temporada turística.”
Bird pensa durante algumas horas e chega a conclusão que o único jeito é ficar mais deprimido do que já está. Desta maneira não vai importa-se com quem estiver ao seu lado, pois pensará apenas na tristeza que está sentindo. Vai finalmente fechar a porta da arapuca e se enclausurar em sua mente doente. Pensando assim começa a recapitular todos os momentos tristes, não só os atuais mais todos os que lembra ter vivido nos seus trinta anos de vida.
Mas o cansaço de seu corpo é maior do que pode suportar e acaba adormecendo profundamente. Um sono sem sonhos, escuro e frio. Exatamente o que estava procurando. Um buraco para se enfiar e nunca mais sair de lá.
Os minutos passam mudos até a manhã chegar.
___ Vamos! Acorde! Tá esperando o que para levantar!___Uma voz doce, delicada e insistente ecoa nos ouvidos de Bird.
Ainda mais dormindo do que acordado. Ele esbraveja com voz miúda:
___ Cala a boca. Me deixe dormir em paz. Não tenho nada pra fazer mesmo.
___ Tem sim. Tem que acordar. Precisamos conversar, pois já estou ficando entediada aqui sozinha. ___ Diz a voz em tom de birra de criança mimada.
___ Não vou acordar agora, vai ler um livro e me deixe em paz. ___ fala ele virando-se para o lado e enterrando o rosto no travesseiro.
___ Se eu pudesse segurar um livro juro que o faria. Com certeza é mais interessante do que te ver dormir deste jeito. Será que tem idéia do quanto você baba quando dorme pesado deste modo? Vai ter que colocar a roupa de cama pra secar depois disso.___ diz ela sarcasticamente e com uma risadinha ao final.
Bird está profundamente irritado, detesta ser acordado desta maneira. Está prestes a pular da cama e gritar com a dona da voz quando um pensamento estranho lhe ocorre.
“De quem é está voz? Ninguém tem a chave deste apartamento. Pelo menos ninguém vivo tem.” Ele abre os olhos e pula da cama assustado, mas não há ninguém no quarto.
____ Que merda está acontecendo? Estou ficando louco com certeza! Só eu mesmo para querer me deprimir e acabar conseguindo ficar louco. Será que não faço nada certo? Eu… Que merda, com quem que eu estou falando afinal?
Ele fecha os olhos por alguns instantes e pensa na voz.
“Será que realmente consegui desta vez? Estou ficando louco? A voz que escutei me parece muito familiar. Parece que sempre a ouvi, mas não consigo me lembrar de quem é.”
De olhos bem abertos caminha em direção ao banheiro. Olha-se no espelho e vê a imagem deprimente estampada em sua face. Tem vontade de voltar para a cama, mas está muito agitado para dormir depois de acordar tão abruptamente.
___ Banho. Não conheço muitos deprimidos que se lembram de tomar banho, mas tenho que relaxar de alguma forma. Relaxar! Tá ai outra coisa que deprimidos não pensam.
Sem parar para pensar muito arranca a roupa e pula em baixo da água gelada. Não costuma tomar banhos frios, mas um certo desejo masoquista o toma nas horas de tristeza. Quer se machucar de qualquer forma. Sente que merece, mas…
___ É covarde demais para se machucar de verdade, não é? Ainda bem que você é frouxo, assim fica mais fácil continuar vivendo.
A voz feminina mais uma vez fala em alto e bom som. Sarcástica, as palavras atingem com força o orgulho do rapaz.
___ Quem é você?__grita ele___ Onde está? Mostra sua cara! Como pode me chamar de covarde se nem tem coragem de aparecer?
___ Olhe pra traz.___ diz ela___ Será que não percebeu da onde vem o som?
Bird assustado, porém, com muita raiva virasse rapidamente e vê dentro do box uma garota. Aparenta ter uns vinte e poucos anos, baixinha com penetrantes olhos azuis de um tom sobrenatural. Os cabelos longos e dourados chegam quase à cintura e parecem produzir sua própria luz. Ela olha fixamente dentro dos olhos do rapaz. Parece poder ver sua alma, na verdade parece conhecer a alma de Bird muito bem. Ele tem a sensação de estar despido, não de roupas, mas de sua carne. Um calafrio percorre seu corpo de cima a baixo. Pensa estar vendo um fantasma.
___Não sou um fantasma e o calafrio que está sentindo é devido à água gelada caindo nas suas costas.
___ Se não é um fantasma, quem é você afinal?___ Diz ele agora sem raiva, porém muito assustado.
___ Você me conhece muito bem, mas realmente nunca fomos apresentados formalmente.___
Ela fala aproximando-se de Bird. Quando chega a poucos centímetros dele pede que se abaixe e fala ternamente em seu ouvido:
___Muito prazer meu nome é Uil e eu sempre vivi aqui, dentro da sua cabeça.
CONTINUA…
*Uil – Coruja em holandês
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